DEPOIS DAQUI...
Às vezes eu paro e penso em uma das coisas mais estranhas da existência humana:
Nós estamos aqui.
Respirando. Pensando. Amando. Trabalhando. Fazendo planos. Reclamando do trânsito, do dinheiro, das pessoas, do trabalho… comprando coisas, construindo casas, juntando fotografias, fazendo promessas para o futuro.
E, ao mesmo tempo, existe uma certeza silenciosa caminhando ao nosso lado desde o dia em que nascemos:
um dia, nós vamos embora.
O mais louco é que ninguém sabe exatamente como será esse momento.
Ninguém voltou com uma fotografia do outro lado.
Ninguém trouxe um mapa dizendo: "É assim que funciona."
E talvez seja justamente esse o maior mistério da vida.
Imagine uma pessoa dentro de um trem.
Ela sabe que embarcou, sabe que está viajando, vê as paisagens pela janela, conhece pessoas durante o caminho, algumas ficam por muitas estações, outras descem rapidamente.
Ela se apega às pessoas.
Chora quando alguém vai embora.
Ri quando alguém chega.
Compra coisas durante a viagem.
Às vezes se preocupa tanto com a poltrona, com a bagagem, com quem está sentado ao lado…
que esquece de olhar pela janela.
Até que, em determinado momento, alguém pergunta:
— Para onde esse trem está indo?
E ela responde:
— Eu não sei.
— E o que existe quando chegarmos?
— Também não sei.
Talvez a vida seja um pouco assim.
Nós sabemos de onde viemos, pelo menos até certo ponto.
Sabemos onde estamos.
Mas não sabemos exatamente para onde estamos indo.
E cada pessoa encontra uma resposta diferente para esse mistério.
Alguns acreditam que, depois daqui, existe um céu.
Um lugar de paz, de luz, onde reencontraremos aqueles que amamos e que partiram antes de nós.
Outros acreditam em um plano espiritual, numa continuidade da consciência, numa existência diferente daquela que conhecemos.
Há quem acredite na reencarnação, que a vida seja apenas uma etapa de uma jornada muito maior, e que possamos voltar para aprender aquilo que ainda não conseguimos compreender.
Outros acreditam que depois da morte não existe nada.
E talvez exista ainda alguma verdade que nenhuma religião, nenhuma ciência e nenhuma pessoa conseguiu explicar completamente.
A verdade é que ninguém sabe.
E talvez seja justamente por não sabermos que a vida se torna tão preciosa.
Porque se tivéssemos certeza absoluta sobre o que existe depois, talvez vivêssemos de outra maneira.
Talvez o grande segredo não esteja em descobrir o que existe depois da morte.
Talvez esteja em entender o que fazemos enquanto ainda estamos vivos.
Porque olha que contraditório…
A gente passa a vida inteira correndo atrás de coisas que um dia ficarão para trás.
Dinheiro.
Status.
Orgulho.
Brigas.
Rancores.
A necessidade de provar que está certo.
A preocupação com o que os outros estão pensando.
E, no fim, quando a nossa estação chegar, nada disso embarca com a gente.
Talvez só reste aquilo que não conseguimos colocar em uma mala:
o amor que demos, as pessoas que abraçamos, o perdão que oferecemos, as histórias que vivemos e a diferença que fizemos na vida de alguém.
Talvez a morte não seja o contrário da vida.
Talvez ela seja aquilo que nos faz perceber o valor de estar vivo.
E existe uma coisa que sempre me impressiona:
Todos nós conhecemos alguém que já foi embora.
Alguém que um dia esteve aqui.
Que tinha voz.
Que tinha planos.
Que ria.
Que reclamava.
Que fazia planos para amanhã.
E hoje existe apenas uma fotografia, uma lembrança, uma saudade.
E talvez seja aí que o mistério fique ainda maior.
Porque quando alguém que amamos morre, uma parte de nós não consegue aceitar que aquela pessoa simplesmente deixou de existir.
Por isso imaginamos um lugar.
Uma luz.
Um reencontro.
Uma outra vida.
Uma dimensão que nossos olhos ainda não conseguem enxergar.
Talvez seja apenas uma necessidade humana de acreditar.
Ou talvez seja algo muito maior do que conseguimos compreender.
Eu não sei.
Você também não sabe.
E talvez ninguém saiba.
Mas existe uma coisa que sabemos:
Hoje estamos aqui.
Hoje podemos ligar para alguém.
Hoje podemos pedir desculpas.
Hoje podemos dizer "eu te amo".
Hoje podemos abraçar nossos filhos.
Hoje podemos visitar nossa mãe.
Hoje podemos perdoar alguém.
Hoje podemos parar por alguns minutos e olhar para o céu.
Porque amanhã…
bom…
amanhã nunca foi uma promessa.
E talvez essa seja a grande moral dessa história.
Não precisamos viver com medo da morte.
Precisamos apenas parar de desperdiçar a vida.
Porque talvez exista um outro lado.
Talvez exista uma luz.
Talvez exista um reencontro.
Talvez exista outra vida.
Talvez exista apenas o silêncio.
Ninguém sabe.
Mas enquanto não descobrimos a resposta…
vamos viver.
Vamos amar.
Vamos perdoar.
Vamos abraçar.
Vamos aproveitar as pequenas coisas.
Porque no grande mistério da existência, talvez o maior milagre não seja descobrir o que acontece depois que morremos.
Talvez o maior milagre seja perceber que, por algum motivo que ninguém consegue explicar completamente, nós estamos aqui.
Respirando.
Sentindo.
Amando.
Vivendo.
E se essa vida for realmente uma passagem…
que a nossa passagem tenha valido a pena.
E quando chegar a hora de descer desse trem…
que a gente possa olhar para trás, pela janela, e pensar:
"Eu não entendi todos os mistérios da viagem… mas eu vivi."