A PRAÇA ONDE NINGUÉM PODIA FALAR


Neste fim de semana, enquanto muitos brasileiros se preparam para celebrar o 7 de Setembro, o Dia da Independência do Brasil, talvez seja importante fazer uma pergunta que vai muito além de uma data no calendário:

De que adianta um país ser independente, se o seu povo tiver medo de falar?

Quero contar uma pequena parábola.

Era uma vez uma cidade chamada Liberdade.

Naquela cidade havia uma grande praça. E naquela praça todos podiam falar.

Um defendia uma ideia.
Outro defendia outra.
Um acreditava em uma coisa.
Outro acreditava exatamente no contrário.

Havia discussões, havia discordâncias, havia até momentos de tensão.

Mas existia uma regra que todos conheciam:

ninguém era obrigado a pensar igual.

Até que, um dia, alguém subiu no palco da praça e disse:

— A partir de hoje, só poderá falar quem estiver certo.

E alguém perguntou:

— Mas quem vai decidir quem está certo?

Ele respondeu:

— Eu.

E foi aí que começou o problema.

Porque, pouco a pouco, algumas vozes desapareceram.

Primeiro, proibiram aquele que pensava diferente.

Depois, aquele que questionava.

Depois, aquele que fazia perguntas demais.

Até que chegou um momento em que as pessoas começaram a olhar para os lados antes de falar.

E a praça continuava cheia...

Mas estava silenciosa.

E então uma senhora, já bastante idosa, caminhou até o centro da praça e perguntou:

— Que liberdade é essa?

Ninguém respondeu.

Ela continuou:

— Se eu só posso falar aquilo que alguém considera correto, então eu não sou livre. Estou apenas repetindo aquilo que me permitiram dizer.

E talvez essa parábola tenha muito a nos ensinar.

Porque liberdade de expressão não deveria ser o direito de falar somente aquilo que agrada ao outro.

Liberdade de expressão é justamente o direito de discordar.

É poder dizer "eu penso diferente de você" sem transformar automaticamente o outro em inimigo.

É poder questionar autoridades.

É poder criticar governos.

É poder criticar instituições.

É poder criticar políticos.

É poder criticar decisões judiciais.

E também é poder defender todas essas coisas.

Porque democracia não existe quando todo mundo pensa igual.

Democracia existe quando pessoas que pensam diferente conseguem continuar vivendo juntas.

E talvez seja justamente isso que esteja faltando ao Brasil neste momento.

Nós nos acostumamos tanto com a polarização que começamos a enxergar o brasileiro que pensa diferente como um adversário que precisa ser destruído.

Se alguém discorda, é chamado de extremista.

Se questiona, é chamado de propagador de mentira.

Se defende uma posição diferente da maioria, imediatamente alguém tenta desqualificar sua voz.

E precisamos ter muito cuidado.

Porque combater uma mentira é uma coisa.

Calar uma opinião é outra completamente diferente.

Se alguém mente, que seja responsabilizado dentro da lei, com direito de defesa e devido processo.

Mas não podemos transformar o simples fato de alguém pensar diferente em crime.

Porque hoje pode ser a opinião do outro.

Amanhã pode ser a nossa.

E quando a censura bate à porta, ela não pergunta em quem você votou.

Ela não pergunta qual é a sua ideologia.

Ela não pergunta sua religião, sua orientação, sua classe social.

Ela simplesmente entra.

Por isso, neste 7 de Setembro, talvez a nossa maior reflexão não seja apenas sobre a independência conquistada em 1822.

Talvez seja sobre a independência que ainda precisamos conquistar todos os dias:

a independência do medo.

Medo de falar.

Medo de perguntar.

Medo de discordar.

Medo de expressar aquilo em que acreditamos.

E eu não estou dizendo que precisamos concordar uns com os outros.

Muito pelo contrário.

Precisamos aprender novamente a discordar sem odiar.

Você pode ser de esquerda.

Pode ser de direita.

Pode não gostar de nenhum dos dois lados.

Pode defender uma determinada pessoa ou ser completamente contrário a ela.

Pode concordar com uma decisão de um tribunal ou discordar profundamente dela.

Tudo isso faz parte de uma sociedade livre.

O que não podemos perder é o respeito.

Porque o meu direito termina onde começa o direito do outro.

E talvez essa seja uma das frases mais importantes que podemos levar para a vida:

eu não preciso pensar como você para respeitar você.

Eu não preciso concordar com você para defender o seu direito de falar.

E talvez essa seja a verdadeira independência que o Brasil precisa celebrar.

Não a independência de um brasileiro contra o outro.

Mas a independência de todos nós contra o ódio, contra a intolerância e contra a ideia perigosa de que somente a minha verdade pode existir.

Que neste 7 de Setembro, quando ouvirmos falar em liberdade, possamos lembrar que liberdade não é escolher quem pode falar.

Liberdade é garantir que todos possam falar — e que a lei seja responsável por estabelecer os limites, não a vontade de quem ocupa o poder.

Porque uma democracia forte não é aquela onde ninguém discorda.

É aquela onde podemos discordar...

e ainda assim continuar sendo irmãos de uma mesma pátria.

Que Deus abençoe o Brasil.

E que nós nunca precisemos chegar ao ponto de olhar para aquela velha praça e perceber que ela continua cheia...

mas ninguém mais tem coragem de abrir a boca.
Feliz 7 de Setembro.

E que a independência do Brasil seja, acima de tudo, a independência de um povo que não tenha medo de pensar, de questionar, de falar e, principalmente, de respeitar. 🇧🇷

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